No caso do seqüestro de Santo André, erraram o seqüestrador, as vítimas, a polícia, a família, todo mundo. Desses, aqueles que devem receber maior cobrança são o seqüestrador, na forma da punição após julgamento, e a polícia, que ganha do Estado para proteger o cidadão e supostamente seria treinada para situações dramáticas como aquela. Essas cobranças foram, são e serão feitas via imprensa, via justiça, via mobilização popular.
Mas eu realmente gostaria de ver uma reflexão mais profunda sobre o papel da imprensa nesse episódio. Por N motivos.
Primeiro, pela desconfiança que tenho de que um seqüestro em que o seqüestrador já tem em sua posse aquilo que supostamente quer é completamente diferente em matéria de negociação de um seqüestro por motivação financeira. O que queria exatemente o rapaz? Será que em algum momento ele sentiu que uma das coisas que poderia querer já havia conseguido: a visibilidade do que estava fazendo? Nesse sentido, penso que declarações como estas, de um ex-membro do BOPE, devem ser consideradas seriamente.
Segundo, pela desconfiança de que a mídia estava mais preocupada em não perder nenhum detalhe do que se passava do que em colaborar racionalmente para um desfecho em que vidas fossem salvas. Isso levou a uma cobertura sensacionalista, em que o crime se transformou em show midiático e as emissoras simplesmente se esqueceram de que existem celulares, a informação corre depressa, as pessoas se comunicam e tudo isso pode influenciar o que está sendo comunicado numa proporção impossível de calcular com exatidão. O show midiático em que esse seqüestro se transformou prolongou-se até os limites do bom senso, como atesta a preocupação em fazer uma coletiva de imprensa com os médicos que retirariam os órgãos da menina morta, seguida de várias notícias sobre quem os recebeu e quais recebeu. Será que é jornalístico alimentar essa incoveniente curiosidade mórbida a respeito de um corpo já privado de sua vida? Como se sentem, ou se sentirão, aqueles que receberam os órgãos da menina? Será que eles precisavam mesmo saber da vida pregressa do ex-dono daqueles órgãos? Pois não estavam eles justamente esperando por órgãos independente de quem os fornecesse, até porque não tinham escolha em relação a isso, uma vez que suas vidas estavam em risco? Para que construir uma heroicização compensatória de uma pessoa assassinada expondo outras que nada tem a ver com isso?
Por fim, incomoda-me sobremaneira a forma como os adolescentes se comportaram neste triste caso, e a inépcia em perceber o efeito da mídia sobre esse comportamento. O que leva o rapaz a declarar ao comandante policial que está no controle da situação? O que leva uma menina recém saída de uma situação que colocou em risco a sua vida pedir a visita de uma celebridade futebolística? Isso é ou não é percepção da visibilidade adquirida? Isso não tem a ver com a atuação da imprensa? Ou é pura arrogância, num caso, e inconseqüência adolescente, no outro?
Em função de tudo isso, espero alguém escrever uma boa análise do papel da imprensa neste caso estranho e aterrador. Quando encontrar alguma, coloco neste post.
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Achei.
http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI3282737-EI6616,00.html
Vale a visita.
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Atualizando em 3 de dezembro de 2008.
Notícia sobre o processo contra a Rede TV. Notar os comentários sobre a notícia, que não vêem nada de errado na atitude da imprensa. Queria ter essa confiança toda.
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
domingo, 19 de outubro de 2008
O biscoito fino de Idelber
Idelber tem o melhor blog de quantos conheço na blogosfera brasileira. Deu um show nesta postagem sobre o caso da homofobia da campanha da Marta.
O que me deixa feliz em relação ao professor é sua sempre farta generosidade em fornecer os links para as informações que posta. Por meio desses links, cheguei a blogs interessantíssimos, como o de Mary W. Fiz uma comunidade no orkut para leitores dele, mas acho que, dos leitores dele, só eu e mais uma temos orkut...
De qualquer forma, confira o link. É show.
O que me deixa feliz em relação ao professor é sua sempre farta generosidade em fornecer os links para as informações que posta. Por meio desses links, cheguei a blogs interessantíssimos, como o de Mary W. Fiz uma comunidade no orkut para leitores dele, mas acho que, dos leitores dele, só eu e mais uma temos orkut...
De qualquer forma, confira o link. É show.
sábado, 1 de março de 2008
Gustavo Ioschpe defendendo as faculdades ruins
Trabalho numa faculdade pequena.
Tive a oportunidade de participar de algumas visitas do MEC, as conhecidas comissões.
São momentos fundamentais de avaliação e direcionamento do trabalho universitário.
O MEC, nessas comissões, pede o mínimo do mínimo: espaço para pesquisa, seriedade no currículo, capacitação e qualificação do corpo docente, estrutura física condizente com o curso implementado. Ao contrário de boa parte dos empresários do ramo da educação e professores das instituições particulares, apóio irrestritamente as exigências feitas pelo MEC. Tem que cobrar mesmo, senão os mantenedores NÃO FAZEM! É uma fiscalização necessária.
Na última comissão, não lembro de uma (uma sequer) pergunta dos avaliadores que não fosse absolutamente pertinente. Cobraram da faculdade o que têm de cobrar, e a faculdade se prontificou a realizar as mudanças sugeridas.
Por isso, fiquei absolutamente surpreso ao ler o texto de Gustavo Ioschpe sobre o direito à ruindade, em seu blog na VEJA. A argumentação passa, a meu ver, por dois problemas.
Primeiro, há a crença de que o indivíduo que opta por uma faculdade é adulto e tem os referenciais necessários para escolher conscientemente seu curso de graduação. Sim, ele é adulto; mas ser adulto nada tem a ver com conhecer a fundo a educação, de forma a saber como escolher um curso de graduação. Mesmo que tivessem esses referenciais, as pessoas poderiam ser enganadas, sim, pois existe todo um trabalho publicitário que esconde deficiências e vende o que não existe (ou a propaganda enganosa é uma invenção da esquerda?). E todo-mundo-sabe (Ioschpe inclusive) que os sistemas de avaliação de cursos tem vários problemas, alguns até relacionados à idoneidade dos avaliadores.
O segundo problema é o da redução do argumento ao pior cenário possível. Ioschpe diz que é melhor o estudante fzer uma péssima faculdade que deixar de fazer a faculdade, e que esse estudante não está sendo enganado. Concordo: é melhor cursar que não cursar. E discordo: ao escolher cursar, o estudante espera que a faculdade o habilite a exercer com competência a profissão dentro da área escolhida. E que certifique essa habilitação com um diploma. Se o MEC chega à conclusão de que a instituição não tem como oferecer isso, por que o aluno se matricularia? Só para obter o diploma? Ioschpe diz que o governo não precisa proteger o cidadão de si mesmo. Mas o diploma não é para o cidadão. É para a sociedade. É para certificar, por exemplo, que um médico ou advogado está apto a exercer aquela profissão, e que nele posso confiar enquanto paciente ou cliente. Pois se o aluno, enquanto profissional, não cumpre as exigências mínimas de seu cliente em sua área de atuação, não pode o cliente reclamar de propaganda enganosa? Não posso processar um médico por erro médico? Dizer que o diploma em faculdade ruim não compromete equivale a dizer que a faculdade não tem compromisso com a qualidade de seu ensino nem com a sociedade para a qual forma profissionais em diferentes áreas de atuação. Se a faculdade não pode atender às exigências mais básicas para a formação de um profissional, ela TEM DE FECHAR!
Concluindo, achei o texto curioso, pois Ioschpe é um dos arautos da qualidade de ensino no país. Creio que há entrelinhas que não percebi nessa defesa da picaretagem de 3º grau. Gravataí Merengue pode ter alguma informação que me ajude.
Tive a oportunidade de participar de algumas visitas do MEC, as conhecidas comissões.
São momentos fundamentais de avaliação e direcionamento do trabalho universitário.
O MEC, nessas comissões, pede o mínimo do mínimo: espaço para pesquisa, seriedade no currículo, capacitação e qualificação do corpo docente, estrutura física condizente com o curso implementado. Ao contrário de boa parte dos empresários do ramo da educação e professores das instituições particulares, apóio irrestritamente as exigências feitas pelo MEC. Tem que cobrar mesmo, senão os mantenedores NÃO FAZEM! É uma fiscalização necessária.
Na última comissão, não lembro de uma (uma sequer) pergunta dos avaliadores que não fosse absolutamente pertinente. Cobraram da faculdade o que têm de cobrar, e a faculdade se prontificou a realizar as mudanças sugeridas.
Por isso, fiquei absolutamente surpreso ao ler o texto de Gustavo Ioschpe sobre o direito à ruindade, em seu blog na VEJA. A argumentação passa, a meu ver, por dois problemas.
Primeiro, há a crença de que o indivíduo que opta por uma faculdade é adulto e tem os referenciais necessários para escolher conscientemente seu curso de graduação. Sim, ele é adulto; mas ser adulto nada tem a ver com conhecer a fundo a educação, de forma a saber como escolher um curso de graduação. Mesmo que tivessem esses referenciais, as pessoas poderiam ser enganadas, sim, pois existe todo um trabalho publicitário que esconde deficiências e vende o que não existe (ou a propaganda enganosa é uma invenção da esquerda?). E todo-mundo-sabe (Ioschpe inclusive) que os sistemas de avaliação de cursos tem vários problemas, alguns até relacionados à idoneidade dos avaliadores.
O segundo problema é o da redução do argumento ao pior cenário possível. Ioschpe diz que é melhor o estudante fzer uma péssima faculdade que deixar de fazer a faculdade, e que esse estudante não está sendo enganado. Concordo: é melhor cursar que não cursar. E discordo: ao escolher cursar, o estudante espera que a faculdade o habilite a exercer com competência a profissão dentro da área escolhida. E que certifique essa habilitação com um diploma. Se o MEC chega à conclusão de que a instituição não tem como oferecer isso, por que o aluno se matricularia? Só para obter o diploma? Ioschpe diz que o governo não precisa proteger o cidadão de si mesmo. Mas o diploma não é para o cidadão. É para a sociedade. É para certificar, por exemplo, que um médico ou advogado está apto a exercer aquela profissão, e que nele posso confiar enquanto paciente ou cliente. Pois se o aluno, enquanto profissional, não cumpre as exigências mínimas de seu cliente em sua área de atuação, não pode o cliente reclamar de propaganda enganosa? Não posso processar um médico por erro médico? Dizer que o diploma em faculdade ruim não compromete equivale a dizer que a faculdade não tem compromisso com a qualidade de seu ensino nem com a sociedade para a qual forma profissionais em diferentes áreas de atuação. Se a faculdade não pode atender às exigências mais básicas para a formação de um profissional, ela TEM DE FECHAR!
Concluindo, achei o texto curioso, pois Ioschpe é um dos arautos da qualidade de ensino no país. Creio que há entrelinhas que não percebi nessa defesa da picaretagem de 3º grau. Gravataí Merengue pode ter alguma informação que me ajude.
Uma geral sobre o Bender Blog
Visitei o Bender Blog recentemente, por causa de uma sugestão para associar o Nassif à Veja no Google.
Fiquei impressionado com a qualidade técnica do trabalho. Realmente, o Bender manja muito de internet e navegação.
O blog trata de tudo, comenta notícias e quase-notícias, faz brincadeiras, está antenado com o universo blogueiro.
Parece-me também que há um espírito irônico e bem-humorado em alguns posts, embora eu não tenha conseguido entender certas piadas (talvez uma maior visitação me familiarize com o estilo do autor).
Mas o que mais me chamou a atenção foram postagens sobre internet, com curiosidades e avisos sobre spams e coisas do gênero, e o grande número de listas disponibilizadas pelo blog (adoro listas).
Deixo o link e a recomendação para visitação.
Fiquei impressionado com a qualidade técnica do trabalho. Realmente, o Bender manja muito de internet e navegação.
O blog trata de tudo, comenta notícias e quase-notícias, faz brincadeiras, está antenado com o universo blogueiro.
Parece-me também que há um espírito irônico e bem-humorado em alguns posts, embora eu não tenha conseguido entender certas piadas (talvez uma maior visitação me familiarize com o estilo do autor).
Mas o que mais me chamou a atenção foram postagens sobre internet, com curiosidades e avisos sobre spams e coisas do gênero, e o grande número de listas disponibilizadas pelo blog (adoro listas).
Deixo o link e a recomendação para visitação.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
Soninha e uma visão sobre a violência
Muito interessante o comentário de Soninha sobre a relação entre violência e cultura midiática. Vale a pena.
Ela tem a sabedoria de não oferecer respostas prontas, e tratar o tema com a complexidade que sua dimensão exige.
http://blogdasoninha.folha.blog.uol.com.br/arch2008-02-24_2008-03-01.html#2008_02-24_21_59_09-10366234-0
Soninha é realmente muito inteligente.
Ela tem a sabedoria de não oferecer respostas prontas, e tratar o tema com a complexidade que sua dimensão exige.
http://blogdasoninha.folha.blog.uol.com.br/arch2008-02-24_2008-03-01.html#2008_02-24_21_59_09-10366234-0
Soninha é realmente muito inteligente.
domingo, 24 de fevereiro de 2008
A coragem de Nassif
Luis Nassif tem se dedicado a escrever e publicar um corajoso e extraordinário dossiê sobre as mudanças editoriais da revista Veja nos últimos anos.
Tenho acompanhado. O que é notável, além do trabalho de nassif, é a colaboração dos leitores de seu blog. Parece que há toda uma mobilização de internautas para apoiar o blogueiro. Bom que isso aconteça: sempre achei que Nassif seria atacado por causa de sua ousadia.
http://luis.nassif.googlepages.com/home
O último capítulo que li tem suposições interessantes e perturbadoras, mas apresenta menos evidências que os anteriores. Os próximos prometem ser bem mais fundamentados e barulhentos. Estou gostando.
Tenho acompanhado. O que é notável, além do trabalho de nassif, é a colaboração dos leitores de seu blog. Parece que há toda uma mobilização de internautas para apoiar o blogueiro. Bom que isso aconteça: sempre achei que Nassif seria atacado por causa de sua ousadia.
http://luis.nassif.googlepages.com/home
O último capítulo que li tem suposições interessantes e perturbadoras, mas apresenta menos evidências que os anteriores. Os próximos prometem ser bem mais fundamentados e barulhentos. Estou gostando.
Gravataí Merengue X Reinaldo Azevedo
A parte mais divertida do trabalho de crítica de Gravataí Merengue no blog Imprensa marrom é sua minuciosa destruição dos textos de Reinaldo Azevedo. As longas postagens do dia 24 de fevereiro de 2008 são um exemplo de como um blogueiro pode desmontar a argumentação de outro blogueiro com um pouco de boa vontade e atenção.
Vale a pena conferir.
http://www.interney.net/blogs/imprensamarrom/2008/02/24/veja_as_bobagens_maniqueistas_do_articul/
Discordo de apenas um ponto da contra-argumentação, se é que bem entendi: não creio que as reformas de base de Jango pudessem tornar razoável uma "medida extrema" anti-socialista. Creio que Jango era mais populista que socialista, e a esquerda, pelo que li no livro de Jacob Gorender, "Combate nas trevas", vinha conseguindo sucessivas conquistas no campo social, mas estava bem longe de apresentar um projeto viável de poder.
Vale a pena conferir.
http://www.interney.net/blogs/imprensamarrom/2008/02/24/veja_as_bobagens_maniqueistas_do_articul/
Discordo de apenas um ponto da contra-argumentação, se é que bem entendi: não creio que as reformas de base de Jango pudessem tornar razoável uma "medida extrema" anti-socialista. Creio que Jango era mais populista que socialista, e a esquerda, pelo que li no livro de Jacob Gorender, "Combate nas trevas", vinha conseguindo sucessivas conquistas no campo social, mas estava bem longe de apresentar um projeto viável de poder.
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